13 de setembro de 2005

de tanto bater meu coração quase parou

A vida...
Como uma estrada em dia de chuva
Escorregadia e traiçoeira
Os dias e as noites passam nebulosos e cinzentos.
Pelo retrovisor, a névoa e a velocidade
[ não me deixam compreender.

Na estrada do adiante, cenário incerto
[ ofuscado pela densa neblina.

Medo que algo atravesse minha frente,
apresse o encontro com o destino certo
o temido.

Minhas horas passam engolidas pelo cotidiano ocupado
Meus dias voam, pássaros fugitivos da tempestade.
Minha vida se esvai. Escapa entre meus dedos
como a de um paciente em seus momentos finais

Não tenho tempo para pensar só posso agir.
Não consigo mais amar somente planejar meu próximo milhão.
Desconsidero meu passado
Como faz um destinado cavalo correndo em sua raia no derby.
Desvalorizo os que me amam
como, parece, o meu frágil real frente ao dólar forte.
Sobrevivo a vida,
egoistamente.

informação, negócios, grana, luxo, celular novo, carro do ano, casa na praia, amantes lindas, compras na Daslu, informação, baladas caras, informação, cartão de crédito, celular tocando, madrugadas acordadas, informação, notebook, internet plugada, um milhão em segundos, dólar, informação, problemas, problemas, problemas...
círculo de vida
virtuoso?
Ou vicioso?
Questionamentos que me inquietam...

Dor no peito, visão escurece, força esvai,
desequilibro e caio...
Estirado no chão.
Sem ninguém a minha volta para socorrer.
não pude comprar ninguém!
190, SOCORRO!!!

O teto corre apressado e eu aqui deitado.
O tempo corre apressado e eu aqui deitado.
Estático e fraco.

Vozes agitadas me apertam o peito dolorido.
Luzes pequenas invadem minhas retinas coloridas
Choques em alta voltagem ressuscitam meu solitário coração
Apago ...

Máquinas em minha volta
Batidas de um relógio
Contagem de um marcador
ritmo ordenadamente marcado
sincronia da vida

Acordo!
Abro os olhos.
Desperto para a vida que ainda me resta.

Deitado sem força física.
Relembro momentos infantis.
Da época sem pretensão, sem enganação, sem ilusão.
Lá, vivia o mundo real..

Levanto até a janela
Ilumino minha mão com o sol
Pálido, a claridade reflete em minha pele a fragilidade de minha vida
Olhando pela janela vejo a melancólica agitação metropolitana.
Cidade cinza, pessoas brancas, sorriso amarelo

Quero correr, fugir.
voltar ao meu lar.
Ser criança...
abraçar meus amados
jogar tudo para o alto
viver...

II –
Médicos e enfermeiras se aproximam
Procuram acolher e curar.
Mas que remédio tomar para uma vida?
Vitaminas, antibióticos, analgésicos, soros, injeções;
Não.

Preciso de algo forte. Radical.
o mudo telefone dá a dica ao meu lado
Alô, alô...
alguém do outro lado?

Ninguém

Isolado permaneço,
Fraco, debilitado, moído
Não pelas dores da queda
sim, pelo destino que escolhi.

Penso em como mudar, como voltar.
Negar o capitalismo que compra e isola
Voltar para a minha comunidade
Difícil opção para um nobre cativo.

enfermeiras continuam seus cuidados
Entram e saem preocupadas, monitorantes.
Ao final de mais um procedimento:
- “Obrigado”
Eu, próprio, me assustei com aquela minha atitude.
Agradecer alguém?! Quantos anos não faço isso.
Só compro as relações,
não recebo mais nada por préstimo.

III –
O sr. está liberado!! Atestou o senhor de branco,
para onde? para quem? para que?
Pus os pés no chão gelado como eu próprio.
Sem direção, parti.

Andando retornei a vida.
Admirando a cidade cinza, as pessoas brancas, os sorrisos amarelos
Admirando o brilhar dos olhares apressados
Admirando o cheiro das calçadas muito usadas
Admirando os espaços, as esquinas e as praças.

Retornando a vida vou andando
Amar aqueles que amei
Amar os momentos que deixei
Amar as pessoas que um dia comprei

No meu retorno a vida
andando e descobrindo
Encontro o remédio para meus dias egoístas:
Radical como precisava:
Admiração e paixão.

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